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casa dos pergaminhosAugust 26 O QUE QUEROTudo o que eu quero neste último instante infinito, é deleitar em seus braços macios a culpa do meu calor.
Quero deixar em seus lábios, um doce ar de incompreensão, um úmido toque de paixão, um suspiro de amor.
Neste instante, quero-te, em todos os instantes que serão os últimos, compreender meu coração em você.
Tudo o que quero, é suas pétalas de sedução, sua pura água de afeição. Quero-me inocente em ti.August 25 A NOITE NO CHATA NOITE NO CHAT
Naquela época, Phillip tinha dezoito anos. Morava em um apartamento com os pais, perto da reitoria da universidade federal. Entidade em que ele tentara entrar, para cursar artes. No colegial, era sempre o primeiro da turma. Opinava em inúmeros assuntos. Política, filosofia, tecnologia. Agora, quando o assunto era mulher, ia de mal à pior. Era tímido e desengonçado. O rei dos “bolas fora”. Por este motivo, optava sempre em ficar em casa à noite, conversando com alguns amigos pelo chat. Certa vez, sozinho em casa, o Arauto, como era conhecido na internet, foi surpreendido por uma moça, com a alcunha de Anjinha. Anjinha– Oi. Conheço você. Arauto- De onde? Anjinha- Do condomínio. Sou sua vizinha. Sabe, acho você um gatinho. Arauto- Obrigado. Qual seu nome? Anjinha- Daniele. O seu é Phillip né? Arauto- Sim. Qual seu apartamento? Anjinha- É o quarenta e um. Na frente do seu. A Camila era uma garota de uns vinte e dois anos. Trabalhava como modelo em uma agência na capital. Phillip já tinha a visto algumas vezes no elevador. Era apaixonado por ela. Todos os seus amigos e familiares sabiam. A mãe de Phillip, dona Jussara, sempre que saía com o filho e encontrava a vizinha no prédio, dava as suas indiretas. Porém, Camila nunca dava atenção ao garoto. Arauto- No quarenta e um? Hum! Acho que sei quem é você. Anjinha- Pois é. Você nunca me deu bola. Mas, sabe, sou apaixonada por você. Arauto- Jura! Nossa! Também acho você muito bonita. Anjinha- Então. Estou sozinha. Bem que você poderia vir aqui para conversar comigo. Estou tão carente. Arauto- Bem. Não sei. Não faço o seu estilo. Anjinha- Claro que faz. Você é o tipo ideal. Gosto de caras que topam qualquer parada. Que tenham fantasias loucas, que me surpreendam. E principalmente, que gostem de andar ao natural. Arauto- Bem. Vou trocar de roupa. Anjinha- Isso, venha bem social. Essas fantasias me deixam louca. - Nossa! É agora que tiro o atraso. Nunca pensei que a Daniele me daria bola. Caramba. Fantasia? Ao natural? Acho que entendi o que ela quis dizer. Ela deve gostar de uma coisa meio naturalista. Mas social? Mais que rápido, Phillip toma um banho, coloca a fantasia, abre a porta do apartamento, olha para o corredor, e sai. Bate na porta da frente, esta semi-aberta. Entra, mas não consegue ver nada, está tudo escuro. Procura o interruptor, mas não o acha. De repente, ouve uma voz aveludada. - Phillip? É você? - Sim Daniele. Vim do jeito que você queria. Ao natural, e ao mesmo tempo, social. Estou todo para você. Nessa, ela liga a luz. Phillip, vestindo apenas um par de meias e uma gravata, depara-se com a família e os amigos reunidos no apartamento da Daniele. Era uma festa surpresa, pois Phillip, havia passado no vestibular. ILUSTRISSIMO PREFEITOROMBOS NA CIDADE
Ilustríssimo Senhor Prefeito Permita-me uma indagação. Vossa excelência passeia nas calçadas desta cidade? Imagino que não. Pois, mal há calçadas em meio aos inúmeros buracos (sem falar das caçambas de lixos oriundos das construções, das caixas utilizadas para a fabricação de massa de cimento entre outras quinquilharias, frutos das eternas obras públicas). Furamos nossos bolsos, com o intuito de tampar as fendas de nossas passarelas. Porém, ficamos, com a carteira tal qual uma peneira, nas covas do esquecimento. Senhor prefeito. “Uma pedra no meio do caminho”, seria aceitável. Pularíamos, desviaríamos, ou talvez, como bom brasileiro, praticaríamos um futrock. Agora, “un buco nel mezzo del cammino di nostra vita”? Isso é inconcebível. Digo-lhe mais, ilustríssimo. Não são meros orifícios em nossas sendas. Mas sim, crateras descomunais. Confesso que sinto um certo receio em andar por aí. E se acabo sendo tragado por uma destas fendas interplanetares que se prostram ante nossas vias? Caminhamos cotidianamente em um queijo suíço. Não me leve à mal, não é de meu feitio, nobre senhor, promover rixa. Mas Julio Verne não teria dificuldade alguma em iniciar nestas valas, a sua viagem ao centro da terra. Na preocupação de evitar um possível sinistro, há quem sinalize os buracos com galhos ou ripas remanescentes de construções. Porém, prezado prefeito, alguns destes rombos são dignos de Araucária Angustifólia. E quando chove? Ficamos ilhados nas poucas partes que nos restam. Formam-se pequenos pesque-pague nas vielas, ruas e avenidas curitibanas. Desculpe-me a ignorância, senhor prefeito, caso sejam estes buracos, parte de um projeto da nossa tão ilustre engenharia. Ciência esta, a qual o senhor é profundo conhecedor. Poderiam ser, os buracos, mini reservatórios de água, produzidos diariamente com o intuito de suprir a necessidade da população? Ou quem sabe, uma forma de irrigar a terra, já que nossos asfaltos e construções tornam este solo impermeável? Seriam refúgios subterrâneos, para uma futura catástrofe? Sinceramente, senhor prefeito, cabe a vossa excelência as respostas, e as devidas providências. E a nós, resta o caminhar ébrio, pisando ora na calçada, ora no buraco. Coxo de tanto cambalear, registro assim, a minha mais profunda indignação. August 23 Almas Vermelhas- Final-“Então é você! Repetiu meu verdadeiro nome três vezes e traçou um circulo com uma seta em direção ao pôr do sol, aprendeste bem com os Saqueadores do Templo, senhor Godim, então, presumo que esta arrependido de ter negado meu reino e chamou-me afim de obter um exército de caídos para comandar.” -“Nunca aceitaria me corromper para seu lado, ser vil, senhor das moscas, não penderia para seu lado, jamais correria para debaixo de suas asas, quero apenas saber porque o ultimo corpo de quem retirei a alma esta caminhando pela terra.” -“Há!há!há! O iluminado jamais se apercebeu de meu plano, pensou que deixaria você a esmo capturando almas, enquanto eu ficaria aqui chupando o dedo? Filho de uma rapariga de hábitos duvidosos, as almas que você captura vem para meus braços, com toda a certeza são almas daqueles que não crêem em nada alem da matéria, alem da ciência, pobres humanos, nem cogitam que o criador da ciência a qual eles idolatram fui eu, patrono da arte de não acreditar em nada, há!há! Mas somente deixar-te deliciar das vidas alheias, e captura-las para mim não seria o suficiente, poderia fazer isso simplesmente e ele jamais perceberia, meu plano foi maior, deixei-te na terra, arauto meu, para disseminar a minha sombra, cada filho teu tem a capacidade que tens, obviamente que eles tem a capacidade de perder o corpo, não suportam a luz do sol, pois ela, é a visão de Deus, por que achas que ao andar pelo dia ensolarado não se ilumina como todos, não tem sombra, ele, o maioral não dirige sequer os olhares para sua pobre carne, Marques. Não tem a quem recorrer, conseguiu a maioridade que poucos homens conseguiram, és um corpo renegado no céu e nas trevas, e assim sempre será.” -“Louco desvairado, és carne podre a me corroer as vísceras, não serei o executor de seu plano, denunciarei aos anjos, negarei a carne e segurarei ao máximo a vontade de tomar outras almas.” -“Obrigado pela parte que me toca, caro confrade, sabes muito bem que não suporta esta vontade, não é apenas força minha, mas dele também, alem do mais, não tem a quem recorrer, como já lhe havia dito, os ouvidos dos anjos, dos clérigos, das benditas almas são os ouvidos dele, Deus jamais aceitara sua voz, sua mão é pesada e suas decisões são cruéis, mais que as minhas.” -“Vai-te, morcego que inunda meu peito de ódio, vai-te para as trevas, volte para seu reino pútrido, prefiro um estertor de um errante que a sua voz horrenda, em nome de Deus desfaço este circulo.” E assim desceu ao trono gargalhando, seu plano dera certo, a doença estava a solta no mundo, crescia em progressões geométricas, aos prantos ficava Godim, vitima de sua antiga crença, que agora, vitima de uma metamorfose, virava ódio...” Seus olhos eram negros, eu, naquela época não conseguia sentir nada através deles, e sempre fui bom nisso, se fiquei conhecido como Dr. Miro Bekley, era por que eu conseguia descobrir os traumas e complexos de meu pacientes na primeira vista, mas ele era simplesmente vago, oco, era um corpo sem mente. -“Bela lenda senhor Walter, bela lenda, conheço algumas gregas também, mas eu não tenho muito tempo para dispor, marque uma consulta de forma convencional como todos, eu posso medica-lo e o senhor se esquecera destas histórias extraordinárias e vivera a vida real. Quer um café?”- -“O senhor não acredita não é, acredita sim, mas deve ser difícil para um ser desprovido de crenças como o senhor acreditar em uma outra realidade totalmente diferente daquela que tem. Obrigado pelo café, mas não adianta, não posso sentir o gosto, sabe doutor, o mundo é mera percepção da alma, não posso sentir prazer, gosto, cheiro, dor alem daquela que o sol nos proporciona, amor, nada, pois não tenho mais a minha alma, é difícil no começo, até se dar conta que não é um sonho, até o senhor não conseguir segurar mais seu instinto novo, é quando se dá conta de que foi devorado pelo inferno, aí já é tarde demais, já estará em cima de um corpo sem alma. Alguns acabam com o próprio corpo, outros acreditam na salvação, estes acabam se deparando com a ausência de ajuda e por fim aceitam o fardo do desespero, e passam a eternidade corrompendo.”- -“Ok, já esta indo longe demais, meu horário é demasiadamente precioso senhor Zimein, outra hora nós conversamos, já esta tarde, olha só, pela lua já deve ser umas dez ou onze horas da noite.”- Então virei-me para a janela, admirei a lua côo nunca tinha feito antes, como se ela tivesse surgido depois de anos, grande, estonteante, chamativa, capaz de hipnotizar qualquer um, podia-se ver um tom avermelhado em sua volta, um alo de fogo, nada normal, como se tivesse acordado de um sono, virei-me, com o intuito de dispensar aquele estranho visitante.-“Bem, então amanhã as oito horas da manhã! Tudo bem para o senhor? Sr. Walter? Sr. Walter Zimein? Onde será que foi, mas a porta esta fechada, ele não pode ter saído!”- Um frio cortante subia pela minha espinha, quando ouvi uma voz atrás de mim, olhei rapidamente, mas não havia ninguém, de repente, a voz clamando por mim novamente, ao meu lado esquerdo, girei a cabeça sem nem ao menos pensar, é incrível o que a adrenalina faz com nossos instintos, o medo libera o nosso ser natural.- “Qu!Qu!Qu!Quem é o senhor na veveverdade?? Anda, responde-me!” - - “Sou quem lhe disse que era, Walter Zimein, filosofo alemão, tenho duzentos anos, há!há!há!há!h! Um dia fui ateu, hoje, sou desalmado!há!há!há!” - - “Anda, apareça, aonde você se meteu, bosta, vou chamar os seguranças, apareça.” - O desespero fez com que eu me levantasse e vasculhasse a sala, mas a voz vinha de todas as partes, penetrava em minha mente, cada vez mais alta, dava a mostra da insanidade, eu sabia muito bem o que um desequilibrado mental podia fazer, já presenciara muitas tragédias, não queria ser vítima de uma delas, o que fazer? Corri desesperado para a porta, estava trancada, tremendo, tentei virar a chave, mas ela não girava, logo não pode estar trancada, mas porque não eu não conseguia abri-la, esforça-me ao máximo, algo deve estar segurando a porta. Dirigi-me a janela, esbarrando em tudo pelo caminho, papéis ao chão, cadeiras, abajur, mas quando cheguei perto da tão esperada saída, ela se fecha, automaticamente, tentei abri-la, desisti, virei-me para a sala, ofegante, olhos arregalados, que fazer agora, gritar? Não adiantaria, peguei o telefone, interfonei para a secretaria do centro psiquiátrico, mudo, a linha parece cortada, coloquei o fone no gancho, peguei novamente, mudo, a coisa fugiu de meu controle.- “Você quer me matar? me matar? Mate-me agora, meu sangue jamais será a cura de seus problemas, alem do mais, logo darão por minha falta, virão atrás de mim, prenderão você. APAREÇAA!” - O silencio que procede o grito é horripilante, logo os sons voltam gradativamente, primeiro a pulsação em minhas têmporas, depois o vento balançando as folhas, os sapos, grilos, mas ali dentro, nenhum som, em passos lentos caminhei em direção da porta, um pé, depois outro, consegui dois passos de minhas pernas trêmulas. - “Estou aqui, na luz do luar, caro doutor.” - Olhei assustado para a janela, ninguém, mas a voz veio daquele lado, a luz apaga, a sala não esta tão escura, pois a lua ilumina-a bem, fito a lua mais uma vez, como se esta fosse a ultima vez que eu iria senti-la, estava certo, um barulho atrás mim, algo se aproximava quase furtivamente. - “Venha Bekley, para meu JOGOO! HÁ!HÁ!HÁ!” - - “O quê? Nãããããããã!!!!” - Vi apenas seu semblante vindo em minha direção iluminado pela lua, branco como a neve, acordei no outro dia, vago, sem sentimento, e assim foi o resto dos tempos até hoje. E aqui estou, doutor Stein, a sua frente.” Joham vira-se para a lua, assusta-se com a sua aparência, nunca havia visto-a assim, esplendorosa, estava sentindo o medo crescer dentro de sua barriga, poderia ser verdade, poderia não ser, aquele senhor poderia ter matado o verdadeiro doutor Dr. Miro Bekley, ou poderia ser o próprio desalmado? Confuso, irreal, fazer-se de louco para tratar de um louco, mas jamais transformar-se louco. -“A lua de sangue também lhe chama caro Doutor.”- Disse Bekley. - “Desculpe-me senhor, mas não acredito nesta...”- Deparou-se com a sala vazia, começou acreditar, desesperou-se mas não foi até a porta, ela estava trancada, no fundo sabia, para tirar a prova, pegou o interfone, mudo, e mudo ele também estava.- “Eu poderia fugir Miro?, Você não quer a mim, eu acredito em deus, acredito em cristo!” - - “Em seu coração habita apenas o vácuo, senhor, não tente enganar a mão do diabo. Garanto-lhe, será indolor.” – A voz do doutor parecia domar a sala por completo, era impossível para Joham saber de onde ela vinha, era como se aquele ser que antes estava a sua frente agora fosse onipresente, porem, apenas na voz. - “Quem garante que o senhor não é um assassino acreditando ser um arauto luciferiano? Quem??!!!” – Assustado, suando frio, o senhor Stein arregala os olhos e em movimentos frenéticos responde para todos os lados. - “Não acredita na lua?” – A voz do antigo psiquiatra agora parecia vir de cima. Novamente olha a lua, ela sorri para ele, a luz se apaga a suas costas, mas aquele satélite é mãe, e cobre seu coração com seu amor rutilante, com uma lágrima em seu rosto, vira-se para o golpe final. - “Joham, eu sou o começo e o fim” - - “AAAHHHHHHHHHHHH!!!” - August 22 Almas Vermelhas -Parte 3-“Então é você! Repetiu meu verdadeiro nome três vezes e traçou um circulo com uma seta em direção ao pôr do sol, aprendeste bem com os Saqueadores do Templo, senhor Godim, então, presumo que esta arrependido de ter negado meu reino e chamou-me afim de obter um exército de caídos para comandar.” -“Nunca aceitaria me corromper para seu lado, ser vil, senhor das moscas, não penderia para seu lado, jamais correria para debaixo de suas asas, quero apenas saber porque o ultimo corpo de quem retirei a alma esta caminhando pela terra.” -“Há!há!há! O iluminado jamais se apercebeu de meu plano, pensou que deixaria você a esmo capturando almas, enquanto eu ficaria aqui chupando o dedo? Filho de uma rapariga de hábitos duvidosos, as almas que você captura vem para meus braços, com toda a certeza são almas daqueles que não crêem em nada alem da matéria, alem da ciência, pobres humanos, nem cogitam que o criador da ciência a qual eles idolatram fui eu, patrono da arte de não acreditar em nada, há!há! Mas somente deixar-te deliciar das vidas alheias, e captura-las para mim não seria o suficiente, poderia fazer isso simplesmente e ele jamais perceberia, meu plano foi maior, deixei-te na terra, arauto meu, para disseminar a minha sombra, cada filho teu tem a capacidade que tens, obviamente que eles tem a capacidade de perder o corpo, não suportam a luz do sol, pois ela, é a visão de Deus, por que achas que ao andar pelo dia ensolarado não se ilumina como todos, não tem sombra, ele, o maioral não dirige sequer os olhares para sua pobre carne, Marques. Não tem a quem recorrer, conseguiu a maioridade que poucos homens conseguiram, és um corpo renegado no céu e nas trevas, e assim sempre será.” -“Louco desvairado, és carne podre a me corroer as vísceras, não serei o executor de seu plano, denunciarei aos anjos, negarei a carne e segurarei ao máximo a vontade de tomar outras almas.” -“Obrigado pela parte que me toca, caro confrade, sabes muito bem que não suporta esta vontade, não é apenas força minha, mas dele também, alem do mais, não tem a quem recorrer, como já lhe havia dito, os ouvidos dos anjos, dos clérigos, das benditas almas são os ouvidos dele, Deus jamais aceitara sua voz, sua mão é pesada e suas decisões são cruéis, mais que as minhas.” -“Vai-te, morcego que inunda meu peito de ódio, vai-te para as trevas, volte para seu reino pútrido, prefiro um estertor de um errante que a sua voz horrenda, em nome de Deus desfaço este circulo.” E assim desceu ao trono gargalhando, seu plano dera certo, a doença estava a solta no mundo, crescia em progressões geométricas, aos prantos ficava Godim, vitima de sua antiga crença, que agora, vitima de uma metamorfose, virava ódio...” Seus olhos eram negros, eu, naquela época não conseguia sentir nada através deles, e sempre fui bom nisso, se fiquei conhecido como Dr. Miro Bekley, era por que eu conseguia descobrir os traumas e complexos de meu pacientes na primeira vista, mas ele era simplesmente vago, oco, era um corpo sem mente. -“Bela lenda senhor Walter, bela lenda, conheço algumas gregas também, mas eu não tenho muito tempo para dispor, marque uma consulta de forma convencional como todos, eu posso medica-lo e o senhor se esquecera destas histórias extraordinárias e vivera a vida real. Quer um café?”- -“O senhor não acredita não é, acredita sim, mas deve ser difícil para um ser desprovido de crenças como o senhor acreditar em uma outra realidade totalmente diferente daquela que tem. Obrigado pelo café, mas não adianta, não posso sentir o gosto, sabe doutor, o mundo é mera percepção da alma, não posso sentir prazer, gosto, cheiro, dor alem daquela que o sol nos proporciona, amor, nada, pois não tenho mais a minha alma, é difícil no começo, até se dar conta que não é um sonho, até o senhor não conseguir segurar mais seu instinto novo, é quando se dá conta de que foi devorado pelo inferno, aí já é tarde demais, já estará em cima de um corpo sem alma. Alguns acabam com o próprio corpo, outros acreditam na salvação, estes acabam se deparando com a ausência de ajuda e por fim aceitam o fardo do desespero, e passam a eternidade corrompendo.”- -“Ok, já esta indo longe demais, meu horário é demasiadamente precioso senhor Zimein, outra hora nós conversamos, já esta tarde, olha só, pela lua já deve ser umas dez ou onze horas da noite.”- Então virei-me para a janela, admirei a lua côo nunca tinha feito antes, como se ela tivesse surgido depois de anos, grande, estonteante, chamativa, capaz de hipnotizar qualquer um, podia-se ver um tom avermelhado em sua volta, um alo de fogo, nada normal, como se tivesse acordado de um sono, virei-me, com o intuito de dispensar aquele estranho visitante.-“Bem, então amanhã as oito horas da manhã! Tudo bem para o senhor? Sr. Walter? Sr. Walter Zimein? Onde será que foi, mas a porta esta fechada, ele não pode ter saído!”- Um frio cortante subia pela minha espinha, quando ouvi uma voz atrás de mim, olhei rapidamente, mas não havia ninguém, de repente, a voz clamando por mim novamente, ao meu lado esquerdo, girei a cabeça sem nem ao menos pensar, é incrível o que a adrenalina faz com nossos instintos, o medo libera o nosso ser natural.- “Qu!Qu!Qu!Quem é o senhor na veveverdade?? Anda, responde-me!” - - “Sou quem lhe disse que era, Walter Zimein, filosofo alemão, tenho duzentos anos, há!há!há!há!h! Um dia fui ateu, hoje, sou desalmado!há!há!há!” - - “Anda, apareça, aonde você se meteu, bosta, vou chamar os seguranças, apareça.” - O desespero fez com que eu me levantasse e vasculhasse a sala, mas a voz vinha de todas as partes, penetrava em minha mente, cada vez mais alta, dava a mostra da insanidade, eu sabia muito bem o que um desequilibrado mental podia fazer, já presenciara muitas tragédias, não queria ser vítima de uma delas, o que fazer? Corri desesperado para a porta, estava trancada, tremendo, tentei virar a chave, mas ela não girava, logo não pode estar trancada, mas porque não eu não conseguia abri-la, esforça-me ao máximo, algo deve estar segurando a porta. Dirigi-me a janela, esbarrando em tudo pelo caminho, papéis ao chão, cadeiras, abajur, mas quando cheguei perto da tão esperada saída, ela se fecha, automaticamente, tentei abri-la, desisti, virei-me para a sala, ofegante, olhos arregalados, que fazer agora, gritar? Não adiantaria, peguei o telefone, interfonei para a secretaria do centro psiquiátrico, mudo, a linha parece cortada, coloquei o fone no gancho, peguei novamente, mudo, a coisa fugiu de meu controle.- “Você quer me matar? me matar? Mate-me agora, meu sangue jamais será a cura de seus problemas, alem do mais, logo darão por minha falta, virão atrás de mim, prenderão você. APAREÇAA!” - O silencio que procede o grito é horripilante, logo os sons voltam gradativamente, primeiro a pulsação em minhas têmporas, depois o vento balançando as folhas, os sapos, grilos, mas ali dentro, nenhum som, em passos lentos caminhei em direção da porta, um pé, depois outro, consegui dois passos de minhas pernas trêmulas. - “Estou aqui, na luz do luar, caro doutor.” - Olhei assustado para a janela, ninguém, mas a voz veio daquele lado, a luz apaga, a sala não esta tão escura, pois a lua ilumina-a bem, fito a lua mais uma vez, como se esta fosse a ultima vez que eu iria senti-la, estava certo, um barulho atrás mim, algo se aproximava quase furtivamente. - “Venha Bekley, para meu JOGOO! HÁ!HÁ!HÁ!” -August 19 Almas Vermelhas- Parte 2- “O que eu quero? Por enquanto apenas que me ouça, mas não se acanhe em seu próprio consultório, sirva-se do café, pelo aroma que ele exala deve ter sido passado pelas 18:00, ainda esta quente e gostoso, depois se sente, se estiver disposto a me ouvir.” - - “Como ele sabe que o café esta quase fresco?” - Pensou o médico, um pouco alto, o suficiente para que alguém com a audição apurada pudesse ouvir, e não resta duvida que aquele senhor ouviu.-“E baseado em quê o senhor faz tal afirmação?”- -“ha ha”- Uma risada sutil, assim como ele por inteiro-“Já lhe disse, pelo cheiro, Doutor, quando a alma se vai, e o corpo ainda se mexe, você acaba aprendendo a usar o que lhe resta, não é difícil. Este costumava ser meu escritório, consultório, casa, eu fazia tudo aqui, inclusive dar-me ao luxo de satisfazer meus prazeres carnais, aqui foi a minha glória e ruína pessoal, fundei este centro quatro anos depois de ter saído da faculdade, exatamente isso, sou, ou melhor dizendo, fui o Dr. Miro Bekley...”- Ele já não reconhecia o cheiro das coisas á muito tempo, estava jogando com as hipóteses, deu certo, o vulgo “jogar verde para colher maduro”, viu a garrafa, as bordas limpas, deduziu que fora colocada ali no máximo duas horas antes. -“Espere um pouco! Você não espera que eu acredite nesta baboseira toda, , espera?’- Perguntou Dr. Joham com um ar de deboche. -“Indubitavelmente que sim, nobre senhor.”- Frisando a testa Miro descruza as pernas lentamente, sem tirar os olhos de cima de Joham, levanta-se e serve-se de um whisky que estava ao lado da garrafa de café, mexe o copo com suavidade, analisa o liquido, apenas por míseros segundos, não queria perder sua companhia de vista, absorve em um único gole, nada convencional, a julgar pelo seu porte, pelos seus movimentos, pelas vestes, seria do tipo de homem que insere duas pedras de gelo e apenas termina de beber quando o gelo terminar de derreter, sentiria a bebida, seria a bebida, intercalaria tragadas de um belo e fedorento charuto cubano, mas para o espanto do Sr Stein, bebeu no estilo mais caubói possível, impossível alguém de tal compostura agir assim, era um troglodita, um bárbaro herege travestido de homo sapiens, cuspindo injurias no sangue de Cristo escorrido no carvalho. –“Não se espante doutor, sei muito bem como deve se beber um whisky desta magnitude, outrossim, deixo-lhe bem claro que não á paciência de esperar ver o fundo do copo em pequenos goles, prefiro sorve-lo de uma única vez, como um vaqueiro do norte, já que não sinto o gosto mesmo, á quanto tempo, á quanto tempo, maldita vez que dei ouvidos para minha vontade de saber mais, maldita a vez que eu estava no mesmo lugar que o senhor esta, com as mesmas duvidas, ou quem sabe, com o mesmo ceticismo, sou Miro Bekley, acreditando ou não, eis que não me encontro aqui para saber se sabes o que diz saber, ou descobrir se esta dirigindo meu antigo estabelecimento como gostaria que dirigisse, estou agora aqui para lhe falar...”- -“Um momento! O Dr Berkley pelos registros do hospital, ficou louco, foi internado aqui mesmo no centro psiquiátrico, permaneceu sob os cuidados médicos por 2 anos e logo após veio a falecer, segundo o laudo medico, de parada cardiorespiratória, impossível ser você, ele sofreu inclusive uma leucotomia, e pelo que vejo no senhor, não há marcas, indícios algum de ter sofrida tal operação.”- Agora o Sr. Stein estava na posição de ataque, sim, ele leu muito sobre o fundador daquela instituição, foi inclusive a cerca dos estudos deste Doutor Bekley que ele fez a sua monografia antes de sair da faculdade. -“Quando a alma deixa o corpo, nobre confrade, quando o ser humano é vitima da ira divina, quando pende para as trevas, e elas o ignoram e barram sua entrada, seu corpo se fecha a cada brecha aberta, a cada refrega, não tem como morrer sem a alma, naquela época eu já era essa massa vazia e pútrida de carne.”- Ambos se calaram, o tempo parecia parar, as bocas não se mexiam por um minuto, este era o minuto da eternidade, na mente de Miro, um vazio, era a forma de se proteger das peripécias do inimigo, jamais deixar qualquer expressão no rosto, deixar na face um sentimento, faz com que os movimentos tornem-se óbvios, em contrapartida, na mente do Doutor Stein, um caos esperando a ordem, esperando um algoritmo que dê razão, sobretudo pelo fato de ainda permanecer naquele consultório com aquele individuo estranho de todas as formas possíveis.-“Que faço ainda aqui? Porcaria de curiosidade, troco meu lar pelas palavras frias deste ser, não consigo me desprender de suas falas, estou colado nelas como um mosquito no sílex.”- Pergunta-se, porem, sabe muito bem o porque de sua permanência, era a loucura a sua fonte de inspiração, dos delírios alheios ele formava os seus, era um louco fingindo ser normal, mesmo sabendo que a normalidade não existe, mesmo sabendo pelo ditado popular que “de poeta, médico e louco, todos temos um pouco”. “Insanire cum insanientibus” ,ou seja, entre loucos, fazer-se de louco. E lá estava ele, mais calmo, apenas escutando, “é isso que este sujeito quer, ser ouvido, então, ouvirei”. -“Imagino que o senhor não esteja muito a vontade doutor, peço-lhe encarecidamente que se sente aqui, pois é seu lugar, o senhor deve estar mais acostumado nesta posição.”- Levantou-se, fez a volta na mesa, e sentou-se na cadeira ao lado da que o senhor Stein estava acomodado, este, com a experiência que os anos lidando com insanos lhe deram, levantou-se e demonstrando calma, dirigiu-se á sua cadeira de sempre, atrás da mesa, nas suas costas, uma janela, com as persianas abertas, uma noite irradiante, poucas nuvens. -“Que queres falar a mim?”- Perguntou o médico, agora, na posição tão acostumada em ofício. -“Uma estória, minha estória, não toda ela, mas a parte que lhe dirá respeito. Há vinte anos, eu estava no ápice de minha carreira, este centro foi o mais procurado deste continente, minhas experiências geravam sucesso, meus aforismos, estudos e livros eram motivo de discussão entre os mais sábios do ramo, elogiado por muitos, cuspido por outros, mas eu não queria isso, a fama jamais foi um objetivo em minha carreira. Em uma certa noite de um outubro vermelho, eu estava nesta sala, a minha principal, fuga de todos os problemas, estas paredes testemunham em favor das vitimas de meus vitupérios carnais, sai para ver um paciente na ala quatro, quando voltei, me deparei com um senhor de aparência sexagenária em minha mesa, de certa forma não estranhei, naquele dia minha secretaria precisou sair mais cedo, e era de praxe ter alguém me esperando, um estudante, ou um colega do ramo, várias pessoas me procuravam, perguntando, pedindo, insultando e até ameaçando, começamos a conversar, seu nome era Walter Zimein, suas palavras eram desconexas, dizia ter mais de trezentos anos, falava sobre cristo, deus e outros assuntos que não compatibilizavam com as minhas idéias da época, eu era ateu, não sabia bem o propósito de sua visita, assim como o senhor para com a minha, mas ele tinha umas idéias intrigantes, de certa forma chamava-me a atenção, dei-lhe trela, ouvi-o assim como muitos já fizeram comigo, porem, com a maior das incredulidades. Não me recordo muito de seus delírios, mas me lembro muito bem de uma estória que me contou, esta, irei narrar ipsis literis que ouvi. ‘...os Desbravadores do Templo, os Desbravadores do Templo, muitos acreditavam em Deus, em Cristo, na igreja, porem, muitos não, suas lâminas eram a palavra divina que convertiam os hereges, na vida, ou na morte, para ser mais preciso, mais na morte. Saqueavam, estupravam, dilaceravam, arrasavam cidades, e no fim, oravam ao papai do céu, como crianças ao pé de seu leito. A ira divina caiu sobre estes bárbaros, os olhos daquele que a tudo criou fitavam colericamente estes seres vis, cavaleiros da morte satânica, travestidos de anjos, no fundo, todos sabiam que eram mais anjos caídos. Muitos morreram na fogueira, como bruxos, esses nos interessam, cuspiram na redenção da Igreja e de seu Rei, abraçaram Lúcifer, tornaram-se guardiões do trono do senhor das trevas, das moscas, dos vermes, dos corvos, eram o lado negro de Deus, pois a sombra segue a luz. Em meio ao fogo da purificação, uma voz brutal ressonava, todos se perguntavam ‘de quem é essa voz? Quem descobre tal força á beira do precipício?’, era o Marques Nicolai Godim, bom homem, sempre fazendo o bem, ajudando á todos, acreditava piamente que estava executando as ordens da voz maior, e agora se depara o julgamento, ordens cumpridas e a mesma voz que o mandou ser crápula por uma boa razão, o condena. Não queria aceitar o peso que lhe foi atribuído, negou ao maioral do mundo, escarrou injurias, debateu-se, chorou, mas as lágrimas mal chegavam aos seus pés, o fogo era forte, Deus virou as costas para Godim, o condenou a viver nas trevas pela sua revolta, era a chance que o primeiro dos caídos queria, ter um igual em sua casa, outrora instrumento da boa palavra, agora, descartado como um lixo. Lúcifer agora era o dono daquela alma emancipada por Deus, na verdade, renegada. Esta seria a ultima coisa que o Marques aceitaria, o que o príncipe das sombras faria? esta alma desgarrada não teria a menor utilidade para ele em seu reino, decidiu então coloca-lo em um lugar neutro, a terra, lugar de ninguém, ali ficaria Nicolai, com uma condição, sobreviver-se de outras almas, das almas daqueles que não acreditam na luz e nem na sombra, o Divino não aceitaria a estadia de um corpo perambulando pelo tabuleiro de xadrez, a condição ditada pelo diabo era o consenso entre ambos, assim, no jogo, ninguém perderia e nem ganharia, apenas Nicolai, seria condenado do mesmo jeito, agora, a viver a eternidade sendo mordiscado pela sua ira. Mandado de volta a terra, sente de tempo em tempo uma necessidade incomensurável de obter almas desgarradas, almas sem crença na força maior. Inúmeras vezes ele investiu na vontade de não sorver a essência alheia, porem, sempre sem resultados satisfatórios, inconscientemente pendia para a sua sina. Tentava sempre conviver com os humanos, de igual para igual, trabalhando entre eles, mas não conseguia, sua natureza amarga lhe impedia, sua consciência, era o lobo entre as ovelhas, tentava imagina-los humanos como ele, mas o que via sempre era a presa, as cenas sempre frescas em sua mente, nunca permaneceu nos locais de onde retirava o sustento obrigatório, sugava uma alma e sem mais delongas partia, para outra cidade, outra tribo, país, até que um dia, resolveu ver o que acontecia, para seu espanto o corpo no outro dia perambulava pela cidade, absorto com a luz, sempre a se esconder nas sombras, ficou surpreso com aquilo e clamou o nome de Deus, que não o respondeu, jurou nunca mais dar ouvidos para ele, sua única saída seria o Diabo. Em meio ao fogo que surgia de uma cratera aberta no solo, uma voz gutural, primeiro gargalhadas, seguidas de palavras incompreensíveis para Nicolai, línguas perdidas, uma figura humana de pele avermelhada aparecia, um rosto inanimado, sem olhos virava-se em direção do Marques, com um estalar dos dedos as labaredas se aquietam, o odor de enxofre nauseabundo fez com que Nicolai abaixasse a cabeça.Almas Vermelhas- Parte 1ALMAS VERMELHAS
Poderia sentir a noite maravilhosa, ludibriar-se com estas estrelas que pintam o céu numa maravilha caótica, contar, uma à uma, poderia talvez sentir o odor da mata, ouvir o que as folhas teriam a contar enquanto a brisa as faziam ressonar, poderia sobretudo sentir-se humano, se não fosse sua mente impregnada do marasmo que esta vida oferece, hipnotizado por este quotidiano ridículo que a burocracia e o ceticismo lhe reservava, ele caminhava, passos longos como se tivesse uma vida para resolver, 20:00 horas da noite de sábado, seus olhos por de traz de um óculos fitando o chão de mármore, não percebe nada pela sua volta, nem as portas que se sobrepõem ao seu caminho, colidiria nelas se não fosse o movimento quase que involuntário de seu braço a empurra-las, uma, duas, três, quatro e inúmeras portas são abertas até que a brisa bate em seu corpo, diante do pátio de estacionamento e da mata, ele para, passa seus olhos pela noite, dando a impressão de estar admirando a natureza sob a luz do luar, porem, engana-se aquele que o interpreta assim, seus olhos apenas passam, superficialmente, inanimados olhos que fitam a noite, a mente embebida de preocupações supérfluas torna-se distante, percebe um carro a sua espera, o único naquele imenso pátio, dirige-se a ele rapidamente, fugindo de seus próprios pensamentos, deixando a mente vazia, mas logo eles o alcançam. Antes que pudesse chegar ao carro coloca a mão no bolso direito da calça, no esquerdo da mesma, nos de traz, abre a pasta que carrega e impaciente procura o objeto, a mente agora em conflito, assuntos, dúvidas, resoluções. - “Maldição!! Onde coloquei ?” Esta duvida tornava-o tão humano, mas não era, eram apenas pensamentos fúteis, voltou para o estabelecimento de onde saíra, abrindo novamente inúmeras portas procurando obter algum êxito em sua busca, o Santo Graal, sudário de Turim, os esboços de Velásquez, uma busca totalmente complicada para a sua mente abarrotada, estava na busca incessante da... - “Maldita chave, onde será que coloquei a maldita chave do carro, será que foi no banheiro, na verdade nem ao menos me lembro se fui ao banheiro, ora, pensando bem, acho que preciso ir ao banheiro, banheiro, banheiro, tenho que falar várias vezes, desta forma não esqueço, maldita memória. Vou ao banheiro de minha sala, é, isso mesmo, é melhor, daí volto, pego meu; Droga! estava esquecendo novamente desta maldita chave, mas onde será que coloquei??” Aquele solilóquio nada cognitivo o acompanhava até a porta da sala, abriu, entrou sem nem ligar a luz, fitou diretamente o molho de chaves em sua mesa, iluminado pelo luar que entrava naquele recinto, depara-se com o contraste de ares, lá fora, uma bela brisa, ali dentro uma atmosfera abafada de charutos queimados, as paredes tão amarelas e malcheirosas de nicotina quanto seus dedos, ao lado do laptop, as chaves do carro, no mesmo passo que entrou, voltou até a porta, porem, antes mesmo de sair, prostrou com a porta aberta olhando absorto o corredor iluminado, como quando se vê algo demasiadamente estranho e apenas depois de alguns segundos toma-se conta do que viu, seria alucinação, uma sombra de alguma arvore no bosque projetada na parede de seu consultório?, virou-se lentamente, e lá estava a sombra, era uma pessoa, não podia uma sombra ser tão real a ponto disso, era possível ver relevos naquela forma, mal conseguia se mexer, quase estagnado pelo medo, ligou a luz, pedindo a deus, mesmo sendo ateu, para que aquilo fosse uma imagem em sua imaginação ,apenas, nada material, a luz acesa fez com que ele se tornasse mais ateu possível, realmente era alguém. - “É, é, vôo vo você! quer o que aqui?” –O medo fez ele sibilar gaguejando as primeiras palavras, pigarreando, tomou coragem, ao menos um pouco, e firmou a voz. – “Aliás, como entrou aqui, não me lembro de tê-lo visto anteriormente aqui no centro psiquiátrico?! que quem é vvocê?”. A luz mostrava um individuo um tanto comum, se não fosse pelo seu aspecto cadavérico, seus olhos opacos, sua cor moribunda e clara, era mais a pele de uma boneca Balzaquiana impregnada de pó de arroz, uma rapariga que resolveu gastar todo o estoque de seu toilette, vestindo um terno muito bem passado e cortado, uma camisa branca, gravata preta e um chapéu de feltro, um cadáver burguês que se achou no direito de sair de sua esquife e perambular pela cidade á fora. Seus olhos opacos e serenos combinavam perfeitamente com sua face, um cavanhaque suíço muito bem feito, dava amostra de um fidalgo, leve como o ar, em passos curtos e bem calculados dirigiu-se á cadeira por traz da mesa e acomodou-se, cruzou as pernas, deitou a mão direita sobre o joelho e posteriormente á esquerda sobre a mesa, sempre encarando candidamente o indivíduo que o abordou em sua solidão escura, seus movimentos precisos, como se o tivesse feito inúmeras vezes durante vários anos de sua vida já passada, ousou falar, mas antes sorriu com graciosidade, seus dentes eram brancos como neve, alinhados, mas o que mais chamava a atenção eram seus caninos, pouco maiores que os outros dentes, nenhuma aberração, porem dava um leve contraste com o conjunto dentário. - “Nada mudou por aqui.” – A afirmação saiu preguiçosa de seus lábios, como se degustasse antes de joga-la ao ar, pensasse nelas enquanto falava. Deliciava-se com o espanto alheio que demonstrava aquele a quem dirigia a atenção. – “Nada mesmo Dr. Joham Stein. É Joham, não é?” - “Ssisim, claro, mas de onde você me conhece? Já foi meu paciente? Ou é familiar de algum? Devo-te algo, dinheiro, sim, dinheiro, você quer meu dinheiro, esta me assaltando?” –Como poderia aquele individuo ali saber quem ele era, como poderia estar dentro de seu consultório, só poderia ter sido um paciente seu, e havia muitos, alguns curados, outros não, enfim, será que ele queria mata-lo por uma cura não alcançada? Assaltante, bulhufas que ele era, como poderia suspeitar de algo tão ridículo, se o fosse, já teria partido para cima dele, apontado uma arma, uma faca, não teria uma aparência assim, não o corpo, mas a roupa tão impecável, ninguém que se preze iria naquela espelunca clínica roubar míseros mil réis. Somente aquela criatura saberia. - “Poderia dizer que sei seu nome apenas pelo fato de ter lido nesta placa em cima de sua mesa, ou pelo diploma na parede, ou ainda pelo nome bordado no bolso de seu jaleco, é óbvio, não acha? Mas não é por estes detalhes que sei, você esta em meu campo de visão há muito tempo, Sr. Joham, psiquiatra formado pela Faculdade Belehham, 42 anos, separado, uma bela ex-esposa e belos filhos aliás, isto é, se me permite dirigir-lhe assim a cerca deles, médico aqui deste centro psiquiátrico há 15 anos, um tempo significante na vida humana, não acha? Deve estar se perguntando se sou algum detetive ou algo assim, não esta?” Sim, era exatamente isso que ele estava pensando, aqueles olhos poderiam transpor as barreiras de sua mente e identificar seus pensamentos? O que ele estaria procurando? Como se não bastassem os dias cheios de problemas. - “Bem, isso tudo esta disposto na ficha do hospital, se isso é ser detetive, bem, espero não estar ofendendo o senhor, mas qualquer criança de 13 anos esta apta para ser então, pois tais informações estão a disposição de qualquer um, agora diga, o que o senhor quer? Diga logo antes que eu chame os seguranças, os guardas, enfim, qualquer um que possa lhe tirar daqui. Diga logo!, queres dinheiro? Não tenho muito mas tome, pode ficar com este.”- Retirando um pequeno maço de dinheiro, notas sujas, novas, rasgadas, dinheiro de bêbado, Joham não tinha cuidado com estas coisas, alem do mais, sua brutalidade ao retirar o dinheiro do bolso foi tal que quase terminou de massacra-las, como se não bastasse o tempo e o uso continuo, sua voz estava mais exaltada, ele não queria papo, o impacto deste encontro já estava passando, apesar dos acontecimentos estranhos ele já estava se acostumando, passava-lhe a hipótese deste individuo ser um paciente novo ao centro, um que devia ter sido internado ás pressas, era de certa forma normal por ali. |
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